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Archive for the ‘Apologia’ Category

Como provar que Ezequiel 28 se refere também a Satanás e ao começo do conflito no Céu?

Como um teólogo aspirante, escrevi meu primeiro trabalho de pesquisa a respeito dos textos de Isaías 14 e Ezequiel 28 – passagens que os adventistas tradicionalmente interpretam como sendo referentes a Satanás e à origem do mal no Céu. Seguindo a pista de comentários da alta crítica, cheguei à desconcertante conclusão de que essas passagens se referem nem a um nem a outro. Consequentemente, senti que os adventistas não deveriam mais citar essas supostas evidências bíblicas para sustentar sua compreensão acerca de como o Grande Conflito começou.

Entretanto, estudos mais aprofundados revelaram que, até o surgimento da crítica histórica à época do Iluminismo, os cristãos em geral interpretavam Isaías 14 e Ezequiel 28 da mesma maneira que os adventistas interpretam hoje. E, recentemente, encontrei evidências exegéticas convincentes de que Isaías e Ezequiel estavam, de fato, se referindo a Satanás nessas passagens.

Enquanto era estudante em nosso seminário, Jose Bertoluci escreveu uma dissertação que compromete seriamente a visão crítica de que os dois profetas descrevem apenas inimigos terrenos históricos de Israel. Intitulado “O Filho da Alva e o Querubim Cobridor no contexto do conflito entre o bem e o mal”[1], o artigo de Bertoluci mostra que cada passagem se transfere do domínio local e histórico dos reis terrestres para o âmbito sobrenatural no qual Lúcifer interpretou seu sedicioso papel. Descobri mais evidências que suportam esse deslocamento conceitual em Ezequiel 28 – do “príncipe” terreno (nagid, o rei de Tiro, versos 1-10) para o “rei” cósmico (melek, o soberano sobrenatural de Tiro, o próprio Satanás, versos 11-19). Descobri também que esse julgamento sobre o querubim caído ocorre no clímax do livro inteiro.[2] Desse modo, a evidência bíblica suporta fortemente a exegese tradicional: o mal teve sua origem em Lúcifer, o querubim cobridor.

Até alguns meses atrás, entretanto, um conceito adventista muito familiar a respeito do advento do Grande Conflito parecia não ter mais do que um suporte bíblico meramente inferencial. Refiro-me às alegações de que, antes de sua queda, Satanás se pôs entre os anjos a difamar o caráter e o governo de Deus. Nos livros Patriarcas e Profetas e O Grande Conflito, em torno de 16 páginas tratam desse assunto, com base em informações a respeito de Satanás tais como o fato de ele ter sido chamado “homicida desde o princípio, […] um mentiroso” (João 8:44, RSV) e “o acusador de nossos irmãos” (Apocalipse 12:10, RSV). Mas existe alguma base bíblica mais explícita para a acusação de “calúnia celestial”?

Acredito que sim. Por um feliz acaso, eu estava examinando uma afirmação recente de que a maior parte da descrição de Satanás em Ezequiel 28 seria apenas simbólica porque, como foi argumentado, ele é descrito como sendo engajado em uma “abundância de […] comércio” (verso 16, NKJV) e, obviamente, Lúcifer não é literalmente um mercador celestial. Na etimologia da palavra hebraica para “comércio”, fiz uma surpreendente e empolgante descoberta. O verbo rakal, do qual esse substantivo deriva, literalmente significa “andar por aí, de um para outro (para comércio ou conversa fútil)”.[3] O substantivo derivado rakil – encontrado seis vezes no Antigo Testamento, uma delas em Ezequiel 22:9 – significa “caluniador” ou “mexeriqueiro”. O outro substantivo derivado, rkullah – que é o termo usado para “comércio” em Ezequiel 28:16 – aparece somente nesse livro, e todas as suas quatro ocorrências têm que ver com Tiro (26:12; 28:5; 16, 18).

A maior parte das versões modernas traduzem rkullah como “tráfico”, “comércio” ou “mercadoria” – o que faz sentido, se aplicado somente à Tiro histórica, uma cidade mercante, como contexto único da palavra. Entretanto, em referência às representações do querubim cobridor em 28:16 e 18, a noção de comércio não parece se aplicar tão bem. O notável crítico exegeta Walther Eichrod comenta: “A descrição da transgressão é um pouco inesperada, já que o comércio aqui é subitamente representado como sendo a origem da iniquidade.”[4]

Uma resposta que acomoda ambas as interpretações, “comércio” e “calúnia”, pode ser encontrada, creio eu, em um recurso literário conhecido como “paranomasia” – um jogo com o significado da palavra. Já que o substantivo rkullah é derivado do verbo que significa “andar por aí, de um para outro, para fins de comércio ou de conversa fútil/difamação” – parece provável que Ezequiel tenha escolhido esse raro termo hebraico (ao invés do termo mais comum para comércio, sahar) justamente por causa de seu possível duplo significado. A Tiro histórica claramente “andou por aí, de um para outro” para fins de comércio com outras nações. De maneira semelhante, o derradeiro governante de Tiro, Satanás (versos 11-19), no celeste “monte de Deus”, também andou por aí, de um para outro – mas não para negociar, e sim para espalhar calúnia e difamação entre os anjos. Ambos os governantes, o terrestre e o espiritual, praticaram “tráfico”: o primeiro, de mercadorias; o segundo, de calúnias contra Deus.[5]

O contexto imediato de Ezequiel 28:16 retrata a queda do Querubim Cobridor da perfeição (verso 15) para o orgulho (verso 17). Nesse cenário, os versos 16 e 18 traçam seus subsequentes passos para a perdição. O verso 16 pode ser mais bem traduzido da seguinte maneira: “Na multiplicação da tua difamação [rkullah], se encheu o teu [de Satanás] interior de violência, e pecaste; pelo que te lançarei, profanado, fora do monte de Deus…” Com hábeis pinceladas, Ezequiel pinta o retrato de Lúcifer difamando a Deus, um primeiro passo em direção à definitiva rebelião aberta e violenta descrita tão bem por João como “guerra no Céu” (Apocalipse 12:7, NIV). Ezequiel 28:18 revela que, após sua expulsão do Céu, o querubim caído continua a sua “iniquidade de difamação [rkullah]” contra Deus. O versículo também registra a sentença divina contra Satanás: destruição pelo fogo por causa da “multidão de suas iniquidades”.

A sediciosa difamação celestial de Satanás contra Deus nos primeiros momentos do Grande Conflito não é uma adição adventista extrabíblica à história; é, na verdade, uma admirável verdade bíblica!

(Richard M. Davidson é professor de Antigo Testamento na Universidade Andrews, nos EUA)

Referências:

1. Jose M. Bertoluci, “The Son of the Morning and the Guardian Cherub in the Context of the Controversy Between Good and Evil”, dissertação de Th.D., Andrews University Seventh-Day Adventist Theological Seminary, 1985 (disponível a partir de University Microfilms, University of Michigan, P.O. Box 1346, Ann Arbor, MI 48106-1346).

2. Richard M. Davidson, “Revelation/Inspiration in the Old Testament”, Issues in Revelation and Inspiration, Adventist Theological Society Occasional Papers, v. 1, Frank Holbrook e Leo Van Dolson, eds. (Berrien Springs, Mich.: Adventist Theological Society Publications, 1992), p. 118, 119.

3. Francis Brown, S. R. Driver e Charles A. Briggs, eds., The New Brown, Driver and Briggs Hebrew and English Lexicon of the Old Testament (Grand Rapids, Mich.; Baker Book House, 1981), p. 940.

4. Walter Eichrodt, Ezekiel: A Commentary, Old Testament Library (Philadelphia: Westminster Press, 1970), p. 394.

5. Apocalipse 18 parece capturar esse nuance dúbio utilizado por Ezequiel. Em uma passagem claramente alusória a Ezequiel 28, o anjo fala sobre a “mercadoria” de várias coisas materiais nos versos 12 e 13, mas a listagem termina transferindo-se para o âmbito espiritual: “mercadorias de […] almas humanas” (KJV).

Fonte: Criacionismo

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O livro Na Mira da Verdade, fruto do programa televisivo da TV e rádio Novo Tempo, apresenta três seções que abordam (1) a apologética (defesa racional da fé), (2) alguns dos principais argumentos da Bíblia Apologética de Estudos, elaborados para refutar os adventistas, e (3) respostas a perguntas frequentes.
No capítulo sobre apologética, o jornalista, pós-graduado em jornalismo científico e mestrando em teologia Leandro Quadros demonstra biblicamente a importância da defesa da fé, como a apologética é utilizada no cenário brasileiro contemporâneo, oferece dicas para você agir num debate e argumentos para refutar a acusação de que o adventismo é uma “seita” herética.
Já no capítulo 2, são analisados alguns dos textos usados pelos adventistas e “reexplicados” pela Bíblia Apologética de Estudos, para que o leitor perceba que a referida Bíblia de Estudos apresenta sérias distorções quanto às doutrinas fundamentais das Escrituras.
E no capítulo 3, o leitor encontra uma série de respostas objetivas a alguns dos principais questionamentos apresentados pelos telespectadores e ouvintes do programa “Na Mira da Verdade”.
O volume 2 já está sendo preparado, mas, enquanto isso, você pode adquirir o Na Mira da Verdade (volume 1) pelo site www.leandroquadros.com.br. Acesse e conheça também o sumário do que é apresentado na obra. E, assim como muitos cristãos, incluindo pastores protestantes e líderes católicos e espíritas, conheça mais sobre as verdades bíblicas “que podem tornar-te sábio para a salvação pela fé em Cristo Jesus” (2Tm 3:15).

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Ouve-se muito de pregadores adventistas a seguinte declaração: “Jesus não vai mudar você quando ele voltar, você vai pro céu com o mesmo caráter que tem agora!”
Esse apelo é baseado numa passagem de Ellen White que diz o seguinte:

Sairemos da sepultura com a mesma disposição que manifestamos em nosso lar e na sociedade. Jesus não altera o caráter em Sua vinda. A obra de transformação tem de ser efetuada agora. Nossa vida diária está determinando o nosso destino. Precisamos arrepender-nos dos defeitos de caráter, vencê-los pela graça de Cristo e formar um caráter simétrico neste período de prova, a fim de que sejamos habilitados para as mansões lá do alto.” (Eventos Finais, 295) 

Uma primeira observação importante: ela não diz caráter perfeito e sim simétrico. Ademaiso contexto original da passagem (Manuscript Releases 13:82) revela que Ellen White está falando sobre a influência dos pais sobre os filhos e da importância do cuidado com as palavras usadas no lar,  pela demonstração de amor, afeto, paciência etc.
George Knight em seu livro “Como Ler Ellen White” nos adverte sobre a importância de discernir entre declarações de Ellen White que apontam para um ideal e as que falam do real:
Ellen White constantemente entristeceu-se com os que selecionam de seus escritos “as expressões mais fortes dos testemunhos e sem fazer uma exposição ou um relato das circunstâncias em que são dados os avisos e advertências, querem impô-los em todos os casos. […] Escolhendo algumas coisas nos testemunhos, impõem-nas a todos, e, em vez de ganhar almas, repelem-nas. Quando Ellen White fala do ideal, ela emprega sempre sua linguagem mais forte. É como se ela sentisse a necessidade de falar em alta voz para ser compreendida.”  (George Knight, “Como Ler Ellen White,”  99, http://www.scribd.com/doc/66084171/Como-Ler-Ellen-White).
Creio que o problema da interpretação dessa passagem é confundir natureza pecaminosa com caráter. É possível desenvolver um caráter que está constantemente voltado às coisas de Deus, apesar de nossa natureza pecaminosa, que será removida por ocasião da vinda de Cristo. É possível viver “com os pés na terra e olhos no céu” como diz a famosa canção. Por isso,  o uso que é feito dessa passagem infelizmente tende a apoiar o perfeccionismo, que não é seu objetivo! Sem dúvida, tal leitura acaba colocando Ellen White contra o apóstolo Paulo que diz
Eis aqui vos digo um mistério: Nem todos dormiremos mas todos seremos transformados, num momento, num abrir e fechar de olhos, ao som da última trombeta; porque a trombeta soará, e os mortos serão ressuscitados incorruptíveis, e nós seremos transformados. Porque é necessário que isto que é corruptível se revista da incorruptibilidade e que isto que é mortal se revista da imortalidade. Mas, quando isto que é corruptível se revestir da incorruptibilidade, e isto que é mortal se revestir da imortalidade, então se cumprirá a palavra que está escrito: Tragada foi a morte na vitória. (1 Cor. 15:52-54)
Essa transformação de corruptível para incorruptível também inclui nosso caráter deficiente e imperfeito, nossa natureza pecaminosa, nossas tendências ao mal bem como nosso corpo mortal. O que não mudará será nosso desejo de estar para sempre com Deus, que deve começar hoje!
Por isso, quando Ellen White nos incita a desenvolver um “caráter simétrico” que estará preparado para o céu, creio que seu objetivo não é levar-nos às raias do “perfeccionismo sem pecado” como passaporte para as mansões celestiais, mas sim ao desenvolvimento de uma constante submissão à vontade de Deus e desejo de fazer sua vontade que se revela numa disposição humilde e positiva, serviçal. Afinal, esse é o caráter dos seres não caídos: eles fazem a vontade de Deus de dia e de noite.
Em nossa esfera pecaminosa, desenvolver um caráter que esteja sempre voltado às coisas de Deus é de suma importância, apesar de nossas falhas e limitações da impossibilidade de desenvolver um caráter absolutamente imaculado, sem propensões ao pecado, sem erros ou falhas. Somente Jesus teve um caráter sem propensões ao pecado e por isso ele pode salvar “perfeitamente” os que por Ele se achegam a Deus.
Como saber se nosso caráter está agora preparado para o céu? Ellen White ilumina a questão ao sugerir as seguintes perguntas:
“Quem possui nosso coração? Com quem estão nossos pensamentos? Sobre quem gostamos de conversar? Quem é o objeto de nossas mais calorosas afeições e nossas melhores energias? Se somos de Cristo, nossos pensamentos com Ele estarão, e nEle se concentrarão as nossas mais doces meditações. Tudo que temos e somos a Ele será consagrado. Almejaremos trazer a Sua imagem, possuir Seu Espírito, cumprir Sua vontade e agradar-Lhe em todas as coisas. (Caminho a Cristo, 58).
E compare a declaração acima com essa:
Eu nunca ousei dizer: “Sou santa, sou sem pecado”, mas procuro fazer de todo o meu coração o que acho ser a vontade de Deus, e tenho a doce paz de Deus em minha alma. Posso confiar o cuidado de minha alma a Deus, como a um fiel Criador, e sei que Ele guardará o que foi entregue aos Seus cuidados. A minha comida e bebida é fazer a vontade do meu Mestre (ME 3, 354).
Aí está o segredo, procurar fazer de todo o coração a vontade de Deus. Ellen White continua:
Não podemos dizer: “Sou sem pecado”, até que seja transformado este corpo abatido, para ser igual ao corpo da Sua glória. Se, porém, procuramos constantemente seguir a Jesus, pertence-nos a bendita esperança de ficar em pé diante do trono de Deus, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante; completos em Cristo, envoltos em Sua justiça e perfeição. (ME 3, 354)
e finalmente:
“Não devemos fazer de nós mesmos o centro, nutrindo ansiedade e temor quanto a nossa salvação. Tudo isto desvia a alma da Fonte de nosso poder. Confiai a Deus a preservação de vossa alma, e nEle esperai. Falai e pensai em Jesus. Que o próprio eu se perca nEle. Ponde de parte a dúvida; despedi vossos temores. Dizei com o apóstolo Paulo: “Vivo, não mais eu, mas Cristo vive em Mim, e a vida que agora vivo na carne, vivo-a na fé do Filho de Deus, o qual me amou, e Se entregou a Si mesmo por mim.” Gál. 2:20. Repousai em Deus. Ele é capaz de guardar aquilo que Lhe confiastes. Se vos abandonardes em Suas mãos, Ele vos tornará mais que vencedores por Aquele que vos amou.” (Caminho a Cristo, 60 e 61). 
Não, amigo, nosso caráter não será a chave de ouro que abrirá os portões celestiais. Só entrarão ali os que estiverem cobertos pelo sangue de Jesus, pelos méritos de sua vida e caráter perfeitos e pelo seu sacrifício em nosso favor.
Seja feliz hoje, você foi aceito por Deus em Cristo. Não tente buscar a perfeição sem pecado ou um caráter imaculado. Tentativas desse tipo só levam ao desespero e depressão espirituais. Esse não é o objetivo da vida Cristã. Se isso fosse possível, Jesus não teria dado sua vida por você! Procure as coisas de Deus hoje com todo o seu coração, comece sua vida eterna hoje. Faça seu melhor. Deixe o resto com Deus.“Aquele que crê no filho, tem [hoje] a vida eterna.” João 3:36
Um abraço!
André Reis

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O que Jesus queria dizer com a expressão “passar um camelo pelo fundo de uma agulha” (Mt 19:24)?

“As palavras ‘passar um camelo pelo fundo de uma agulha’ são uma expressão proverbial semelhante a várias outras usadas no mundo antigo para descrever uma impossibilidade”

Em Mateus 19:16-30 (ver também Mc 10:17-31; Lc 18:18-30) aparecem o relato do jovem rico, que não conseguiu se desvencilhar de suas posses materiais, e as declarações de Cristo sobre o perigo das riquezas. Depois que o jovem “retirou-se triste”, Cristo afirmou: “Em verdade vos digo que um rico dificilmente entrará no reino dos céus. E ainda vos digo que é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no reino de Deus” (Mt 19:22-24).

Alguns comentaristas bíblicos procuraram minimizar o efeito paradoxal da expressão “passar um camelo pelo fundo de uma agulha” reinterpretando o significado dos termos “camelo” e “fundo de uma agulha”. Por exemplo, há quem diga que a palavra “camelo” se refira aqui não ao próprio animal conhecido por esse nome, mas a um “cabo” ou “corda” de navio. Os defensores dessa teoria se baseiam no fato de que alguns manuscritos bíblicos, produzidos vários séculos depois de Cristo, trazem nesse verso a palavra “cabo” em vez de “camelo”. Como no original grego os termos “camelo” (kámelos) e “cabo” (kámilos) possuem certa semelhança entre si, é provável que alguns copistas e tradutores do Novo Testamento tenham substituído intencionalmente o termo “camelo” por “cabo”. Outra teoria popular pretende identificar o “fundo de uma agulha” com uma suposta portinhola lateral nos muros de Jerusalém, pela qual passavam os pedestres quando os grandes portões daquela cidade já estavam fechados. Embora as portinholas de algumas cidades mais recentes da Síria fossem denominadas de “olho da agulha”, não existem evidências de que esse era o caso com Jerusalém nos dias de Cristo. Como a teoria da portinhola surgiu séculos depois de Cristo, não cremos que Ele a tivesse em mente no texto em consideração.

As palavras “passar um camelo pelo fundo de uma agulha” são, sem dúvida, uma expressão proverbial semelhante a várias outras usadas no mundo antigo para descrever uma completa impossibilidade. Mesmo na literatura judaica posterior aparecem alusões ao “elefante” como incapaz de passar pelo fundo de uma agulha. Sendo que os discípulos estavam bem mais familiarizados com o camelo do que com o elefante, Cristo decidiu contrastar o maior dos animais da Palestina (o camelo) com o menor dos orifícios conhecidos na época (o fundo de uma agulha).

As tentativas de interpretar o “camelo” como um cabo e o “fundo de uma agulha” como uma portinhola acabam enfraquecendo, portanto, a força do argumento de Cristo. O texto de Mateus 19:16-30 deixa claro que o propósito de Jesus era levar Seus discípulos a entender a completa impossibilidade de alguém, semelhante ao jovem rico, ser salvo enquanto ainda apegado às suas riquezas. O problema não está nas riquezas em si, mas no apego indevido a elas. Mas quando o ser humano aceita o convite à renúncia de si mesmo (ver Mt 16:24-26), aquilo que é “impossível aos homens” se torna possível ao poder transformador da graça divina (Mt 19:26).

Por Alberto R. Timm

Fonte: Sinais dos Tempos, janeiro/fevereiro de 2003, p. 30

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Eu achava que o ateu Richard Dawkins era ignorante em matéria de religião, porém, não imaginava que fosse analfabeto.

Veja que impressão teve o crítico literário Terry Eagleton ao ler o livro Deus, um delírio (Companhia das Letras, 2007), da autoria do maior fundamentalista ateu da atualidade:

“Imagine alguém discorrendo sobre biologia tendo como único conhecimento do assunto o Book of British Birds [Compêndio sobre os pássaros britânicos], e você terá uma tosca ideia de como alguém se sente ao ler Richard Dawkins sobre teologia” (Lunging, Flailing, Mispunching: A Review of Richard Dawkins The God Delusion London Review of Books, 19/10/2006).

Tive sensação parecida ao ler as acusações infantis de Dawkins e compará-las com a excelente resposta dada a ele por Alister McGrath e Joanna McGrath em O Delírio de Dawkins – uma resposta ao fundamentalismo ateísta de Richard Dawkins, publicado pela Mundo Cristão (2007).

Alister McGrath, professor de teologia histórica na Oxford, possui doutorado também em biofísica molecular. Ele foi ateu, porém, um dia se encontrou com Jesus Cristo e convenceu-se “de que o cristianismo era uma visão de mundo muito mais interessante e intelectualmente estimulante” (O Delírio de Dawkins, p. 13).

Não vou destacar a “teoria” cientificamente absurda de Dawkins quanto à origem da religião (ele diz que ela é um “vírus da mente” que sai por aí saltitando de uma mente para outra), mas, quero discorrer um pouco na ideia dele (e de outros ateus desinformados) de que a religião é essencialmente má.

Mais especificamente, pretendo lhe apresentar a refutação de Alister McGrath à tese defendida por John Hartung (citada por Dawkins em Deus, um delírio) de que Jesus, por ser um “devoto judeu”, “apresentava a mesma hostilidade aos forasteiros que seus compatriotas”.

O objetivo de Hartung é visível: rebaixar a Pessoa de Jesus e, assim, diminuir o interesse das pessoas em conhecê-Lo e segui-Lo.

Em suma, o Dr. McGrath refuta da seguinte maneira a essa afirmação infeliz de Hartung (utilizada por Dawkins), que revela total desconhecimento da Pessoa de Jesus e de Seu evangelho:

1) Jesus estende o mandamento de “amar o próximo” (Lv 19:18), existente no Antigo Testamento, aos “inimigos”, em Mateus 5:44: “Mas eu lhes digo: amem os seus inimigos e orem pelos que perseguem vocês”

É indesculpável Dawkins não fazer menção a isso, com o evidente intuito de denegrir a imagem de Jesus Cristo para que as pessoas não vejam a beleza do caráter dEle e, assim, se sintam motivadas a tornarem-se cristãs.

2) Cristo, na parábola do “bom samaritano” (Lc 10) deixa bem claro que o “amar o próximo” vai além do judaísmo.

3) O Salvador acolheu aos grupos marginalizados (Mt 9:20-25; 11:28-30) e até mesmo tocava as pessoas consideradas imundas por causa da lepra:

“Jesus estendeu a mão, tocou nele e disse: – Sim, eu quero. Você está curado. No mesmo instante ele ficou curado da lepra.” (Mt 8:3).

4) Jesus não se recusou a dialogar com os greco-romanos por eles serem de uma cultura religiosa totalmente diferente da dEle (Mt 8:5-13; 15:22-28).

5) Cristo dirigiu uma crítica enérgica a um ensinamento de seus compatriotas (os líderes) no que diz respeito à responsabilidade familiar. Os fariseus justificavam o desamparo aos pais se o dinheiro fosse usado para o templo. Porém, o Salvador rejeitou tal ideia com todas as forças (Mc 7:11-13).

Veja também o interesse do Messias pelas relações familiares em João 19:26, 27, onde Ele demonstra preocupação com o bem-estar da mãe. Leia Marcos 10:1-16 para ver a importância que Ele dá ao casamento e o quanto Ele valoriza as crianças – algo contrário ao que os líderes judeus dos dias dEle ensinavam sobre o valor dos infantes.

Por isso: (1) O desconhecimento de Dawkins a respeito da religião; (2) a tentativa dele de abordar o caráter de Cristo sem utilizar-se de fontes primárias e (3) a tendenciosidade dele em não utilizar os textos bíblicos que contrariam as próprias afirmações, se constitui em fatos suficientes para que todo ateu ou agnóstico sincero rejeite a mensagem de Deus, um delírio.

Está mais que na hora de muitos ateus (não me refiro a todos, claro, que não são fundamentalistas) abandonarem o fundamentalismo ateísta de Richard Dawkins, para que não adotem a visão de mundo que eles tanto criticam: o fundamentalismo medieval que proibia a liberdade de pensamento e expressão e que rotulava de “herege” todo aquele que não partilhasse das ideologias da Igreja.

Para conhecer mais detalhadamente a argumentação de Alister McGrath e Joanna McGrath, poderá ler O Delírio de Dawkins, publicado pela editora Mundo Cristão (2007).

Leandro Quadros – Na Mira da Verdade

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1. O escaravelho do Egito

29.08.11 – “O Escaravelho do Egito” from Igreja Adventista do UNASP-SP on Vimeo.
2. Moisés: chamado para libertar

30.08.11 – “Moisés, Chamado para Libertar” from Igreja Adventista do UNASP-SP on Vimeo.
3. A Porta Dourada de Jerusalém

31.08.11 – “A Porta dourada de Jerusalém” from Igreja Adventista do UNASP-SP on Vimeo.
4. Um pão sobre as águas, um odre de fumaça

5. Que queres que Eu faça?

02.09.11 – “Que Queres que Eu Faça?” from Igreja Adventista do UNASP-SP on Vimeo.

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Texto de autoria de Pedro Apolinário, extraído da apostila Explicação de Textos Difíceis da Bíblia.

Denomina-se Doxologia do Pai Nosso a parte final da Oração do Senhor, ou sejam as palavras: “pois teu é o reino, o poder e a glória para sempre, Amém.”

Esta doxologia tem sido questionada pelos eruditos da Crítica Textual, mas como estamos acostumados a usá-la e diante da sua beleza e solenidade, parece ser quase temeridade ventilar este problema. Mas sendo ele real, precisamos tratar dele realisticamente. O Pastor Christianini a ele se referiu, em artigo no Ministério Adventista, Maio-Junho de 1972, páginas 16 e 17; posteriormente, pela mesma revista, Janeiro-Fevereiro de 75; o Professor Aécio Cairus do nosso colégio irmão da Argentina, tocou na mesma tecla, reconhecendo que ela não foi ensinada por Cristo, mas talvez por predileção pessoal, insiste que estas palavras não devem ser retiradas.

Apresentarei o problema, porque todas as pessoas esclarecidas devem conhecê-lo evidentemente, deixando a cada um o direito de seguir a orientação que melhor lhe convier.

Sempre me lembro do incidente passado na sala onde Cristo foi julgado, com um grupo de turistas e a freira que nos orientava. Depois de interessante e útil palestra relembrando episódios do julgamento de Cristo, ela pediu que todos juntos cantássemos um hino católico, que nós desconhecíamos. Pastor Vyhmeister, líder do grupo, atalhou incontinente, sugerindo que todos recitássemos a Oração do Senhor, o que foi feito sob a liderança da freira. Chegando à expressão – livra-nos do mal, ela silenciou, enquanto todos prosseguimos na doxologia. Sem dúvida ela estava mais certa do que nós.

Para melhor compreensão deste estudo, são necessárias algumas rápidas noções de Crítica Textual, como classificação dos manuscritos, seu agrupamento em famílias e o que é uma variante.

I. Classificação de Manuscritos

À medida que novos manuscritos iam sendo descobertos, os estudiosos sentiram a necessidade de classificá-los, visando facilitar seu estudo e referências posteriores.

A primeira classificação foi feita por Johann Jacob Wettestein, na introdução de uma edição crítica do Novo Testamento Grego, publicado em 1751-1752. Ele classificou os manuscritos unciais conhecidos, pelas letras do alfabeto latino e os minúsculos pelos números arábicos – 1, 2, 3, 4, 5 etc. Os papiros ainda não eram conhecidos no seu tempo. Posteriormente, Tischendorf e Von Soden, prosseguiram neste processo classificatório, mas estes estudos foram colocados de lado, especialmente o de Von Soden devido à complexidade do seu processo. A classificação aceita hoje, mundialmente, é a de Gaspar René Gregory, que nada mais é do que a ampliação do processo começado por Wettestein.

Tischendorf introduzira as letras do alfabeto grego para os unciais, desde que as letras do alfabeto latino já não eram suficientes para os manuscritos conhecidos no seu tempo.

Em 1900, em virtude do número de manuscritos unciais, haver superado as letras dos alfabetos grego e latino, Gregory sugeriu que os unciais fossem designados por números arábicos, precedidos de um zero, para não haver confusão com os minúsculos.

O único manuscrito classificado com letra do alfabeto hebraico foi o sinaítico, que recebeu a letra alef, isto para destacá-lo dos demais, a pedido de Tischendorf.

Os papiros foram classificados com a letra P seguida de um número P1 , P2 , P3 , P4, P5, P6 . . .

Dos manuscritos unciais os mais conhecidos são estes:

a – alef ou 01

A – alexandrino ou 02

B – vaticano ou 03

C – efraimita ou 04

O número aproximado dos manuscritos existentes é mais ou menos o seguinte: Unciais 250, minúsculos 2.700, papiros 80, lecionários 2.000.

II. Famílias de Manuscritos

Os manuscritos são classificados em famílias, levando-se em consideração as semelhanças ou diferenças que apresentam. A finalidade desta classificação foi descobrir os manuscritos mais antigos, porque mais se deveriam assemelhar aos originais. São quatro as principais famílias de manuscritos:

a) Bizantina com sede em Antioquia;

b) Ocidental com sede em Roma;

c) Alexandrina com sede em Alexandria;

d) Cesareense cem sede em Cesaréia.

III. Variante

É a maneira diferente da mesma passagem se apresentar nos manuscritos. Expressando-nos de outra maneira: Quando os manuscritos que contêm a Bíblia em seu idioma original diferem entre si em algum pormenor, o modo diferente de cada manuscrito chama-se “variante”. A finalidade principal da Crítica Textual é concluir qual seja a melhor variante, indubitavelmente a que tem mais probabilidade de ser a original e autêntica.

O Novo Testamento Grego, normalmente, traz uma folha com o Aparato Crítico, conjunto de sinais indicando as mudanças que copistas, algumas vezes intencionalmente, porém, muitas outras despercebidamente introduziram no texto que estavam copiando. É papel primordial da Crítica Textual detectar estas variantes, escoimando o texto das omissões, mudanças ou acréscimos que por acaso tenham aparecido.

Após esta digressão pelo reino da Crítica Textual, façamos alguns comentários sobre o término do Pai Nosso.

Quase todas as Bíblias evangélicas registram estas palavras finais, enquanto as Bíblias católicas jamais perfilharam este caminho. Modernamente há a tendência de eliminá-la nas Sociedades Bíblicas, como podemos notar na American Standard Version (1901), na The New English Bible (1970), e em O Novo Testamento Vivo. A Almeida Revista e Atualizada no Brasil e o Novo Testamento na Linguagem de Hoje a colocam entre colchetes, como indicação de que esta parte não se encontra no texto grego que serviu de base para a tradução.

A Crítica Textual, depois de um estudo detalhado e consciencioso, concluiu que ela apenas se encontra nos seis seguintes manuscritos unciais: K, L, W, delta, teta, e Pi. Os peritos nesta matéria estão bem cientes de que estes manuscritos, dos 252 existentes, não estão entre os mais significativos. Dos 2.700 manuscritos cursivos, apenas 19 apresentam a doxologia. Poucas das inúmeras versões antigas, como a siríaca, copta, latinas, etíope, armênia, egípcia, gótica a consignam. Diante desta realidade os entendidos da Crítica Textual da Bíblia aconselham os tradutores a suprimirem definitivamente a doxologia,

O Comentário Adventista segue orientação idêntica ao declarar: 

“Esta cláusula apresenta a doxologia do Pai Nosso. Importante evidência textual pare ser citada em favor da sua omissão. Não consta da versão de S. Lucas desta oração (S. Luc. 11:4). Contudo, o sentimento que ela expressa é escriturístico, em estilo paralelo com I Crôn. 29:11-13.”

Como Surgiu a Doxologia?

Algum copista, conhecedor de outras orações que continham esta terminação, e crendo que o Pai Nosso estava incompleto, achou por bem acrescentá-la, na página que estava copiando. Outros copistas, observando que a doxologia dava realce e beleza à oração, seguiram a mesma trilha, fazendo assim com que ela fosse proliferando em vários textos gregos, até chegar ao Novo Testamento Grego de Erasmo e ao famoso Textus Receptus. Os manuscritos usados por Erasmo, segundo os estudiosos foram 13, pertencentes à família bizantina, que continha a doxologia. Os manuscritos cesareenses também a trazem, mas ela não se encontra nas outras duas famílias.

Os comentaristas têm chegado à conclusão de que a Oração de Davi de 1 Crôn. 29:10-19, onde há uma doxologia deve ter influenciado algum copista a colocar uma idêntica na oração de Cristo. Note bem as palavras dos versos 11 a 13:

“Tua, Senhor, é a grandeza, o poder, a honra, a vitória e a majestade; porque teu é tudo quanto há nos céus e na terra; teu, Senhor, é o reino, e tu te exaltaste por chefe sobre todos. Riquezas e glória vêm de ti, tu dominas sobre tudo, na tua mão há força e poder; contigo está o engrandecer e a tudo dar força. Agora, pois, ó nosso Deus, graças te damos, e louvamos o teu glorioso nome.”

Uma outra semelhante doxologia, apenas mais reduzida, é encontrada em II Tim. 4:18, rezando assim: “A ele glória pelos séculos dos séculos. Amém.”

Para concluir este comentário, quero acrescentar as palavras do Professor Aécio Cairus:

“Toda evidência textual a favor da doxologia pode, pois, reduzir-se a estas duas famílias: cesareense e antioquiense. Por exemplo, a mui autorizada versão Peshitto (siríaca) é tomada também de manuscritos antioquienses. O interessante é que estas duas famílias ‘mancam da mesma perna’: suas variantes têm a tendência de serem expressões mais polidas e literalmente mais elegantes que as de outros manuscritos. Como a doxologia é um agregado que dá mais polimento e elegância ao Pai Nosso, o testemunho antioquiense e cesareense é suspeito. Por outro lado, os manuscritos ocidentais têm a tendência para variantes longas e intercalações, pelo que o seu silêncio aqui resulta em testemunho contra, bastante forte.

“Outra evidência externa confirma as primeiras impressões: a Didaquê, espécie de manual eclesiástico do segundo século prescreve belas liturgias para todas as ocasiões, com doxologia muito semelhante a de que nos ocupamos. Quando cita o Pai Nosso, fá-lo com esta doxologia, e a área de influência da Didaquê foi justamente a cesta oriental do Mediterrâneo (incluindo-se Cesaréia e Antioquia). Daria a impressão de que as palavras com que finaliza o Pai Nosso em nossa Bíblia se originaram com esta liturgia e foram incluídas involuntariamente (pela força do constante ouvir) pelos copistas cesareenses e antioquienses nas Escrituras.

“Conquanto as evidências aqui apresentadas não sejam a rigor definitivas, ilustram muito bem princípios que convêm conhecer. De qualquer modo, não há porque interromper o costume de usar estas formosas palavras quando oramos. O comentário ou utilização que delas faz a Sra. White, só garantem a sanidade e veracidade declarativas não a origem ou canonicidade, a menos que queiramos canonizar também os escritos pagãos que Paulo cita, para exemplo. Mas nos dão razões de sobra para utilizar a formosa doxologia sem a qual, para os que estamos habituados a ouvi-la, o Pai Nosso perderia algo de sua sonoridade.” – O Ministério, Janeiro-Fevereiro de 1975, páginas 13 e 16.

Fonte: Sétimo Dia

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